No dia seguinte, me despedi do João, da Marina e da dona Marlene, que cuida da casa do João. Não tenho palavras pra agradecer, por tudo o que fizeram. Essa é uma das muitas coisas que vou levar na memória pra sempre...
| Ainda em Rio Grande, eu e meu grande novo amigo João, na Ed. da FURG. |
Sai de Rio Grande perto das 10hs da manhã, pois tive que ir até até o lugar onde o João trabalha e pegar a bicicleta, os equipamentos de camping, voltar até a casa e arrumar o alforge... Por isso minha saída tardia de Rio Grande. Comecei a pedalar em direção à Quinta, e vi que tinha alguem pedalando atrás de mim. E pedalando forte! "Vamo! Vamo!" Olhei pra trás, um senhor que devia ter seus 60 e tantos anos. "Vamo! Vamo! Tais vindo da onde, tchê?" Nossa, aí comecei a conversar com ele durante os próximos 20 km adiante.
O Sr. Cadaval treina regularmente em Rio Grande, e participa das competições no Uruguay, tanto de MTB quanto de Speed. Fui trocando uma idéia, da estrada, de pedalar, de tudo. Show de bola! No fim ainda brinquei com ele "se eu chegar na sua idade pedalando, já sou feliz!" Aí paramos nesse posto de gasolina (aliás, o último posto de gasolina próximo da civilização, já explico porque adiante) e tiramos essa foto. Eu segui pro Sul e ele pra casa.
Depois do posto, a estrada virou uma reta infinita. Nada de nada adiante, apenas a reta e as plantações de arroz, uns bois perdidos no pasto. As vezes rolava de ver aqueles bois que só existem no Canal do Boi, era uma distração!
Comprei umas frutas de dois senhores que vinham numa Belina pela estrada, me provi de bananas, maçãs e pessegos e toquei adiante. Lá pelo meio-dia, parei na frente uma granja. Era a única que tinha na estrada, uma área enorme. Tinha uma senhora na entrada, perguntei se poderia sentar na sombra e comer umas frutas antes de seguir. Ela consentiu, e me perguntou se já tinha comido. Respondi que não, e ela me indicou o refeitório onde poderia ganhar um prato. Achei aquilo formidável, pois não teria que descarregar as tralhas e cozinhar, seria um tempo absurdo.
Fui até o tal refeitório e me apresentei, tal qual a senhora da entrada havia me dito. Nisso ela me fala que não seria possivel e tudo mais. Enfim... era 50% de chance. Quando tô voltando pra pegar a bicicleta, eis que uns homens da mesa começam "ô Rosane, marca na minha conta", vários deles. Depois vim a descobrir que alguns deles eram os donos da granja. E me perguntaram da viagem, pra onde ia e de onde vinha... Foram muito legais, me oferecendo esse almoço. Nisso um deles me fala, "amanhã tô indo pro Chuí, se quiser te dou uma carona na caminhonete". E disse que se ficasse pela estrada aceitaria mesmo! (Proféticas palavras...)
Após de almoçar, pedalei mais um tanto e cheguei na Capilha. Diz a lenda que é a igreja mais antiga do Rio Grande do Sul, aproveitei pra descansar e comer umas frutas por lá também.
A Capilha é um lugar com uma vibe muito massa. Tipo, uma positive vibration altoastralizante saca? Eu era o único infeliz de bicicleta naquela 5ª feira. Vale a pena parar e dar uma olhada, é uma capelinha muito interessante. Pena que tá praticamente destruída. Saí da Capilha eram umas 16hs, talvez.
On the road again, entrei na reserva do Taim.
| Entrada da Reserva do Taim, a Falcon tá ali no canto esquerdo da foto. |
Em aproximadamente 20km de extensão é possível ver um pouco da fauna dessa região do Rio Grande do Sul. Porém, como era de se esperar, o tráfego nessa região é intenso. E não raro os animais atropelados...
Abaixo, algumas fotos do lugar:
Eu tinha que passar pela reserva de dia, senão corria o risco de não ter por onde ficar. Isso era o mais preocupante naquele momento. Sabia que aquele trecho tinha que ser feito todo de dia, mas não estava cansado, o vento tava nas costas o tempo todo! Foi coisa linda. Passei pelo posto do IBAMA e ainda dei um alô para os funcionários.
Lá pelas 20hs cheguei no Posto do Português. Reconheci de cara o lugar, porque o Nelson tinha passado por lá em junho, indo pro Uruguay, as fotos não enganaram! Fiquei trocando uma idéia com o Sr. Salazar (nada mais português... porém, com um temperamento bastante distinto do antigo ditador que governou Portugal por quase 40 anos), ele me contou de "dois rapazes que passaram por ali em junho". Ele quase não acreditou quando eu disse que conhecia um deles pela Internet. Foi muito bacana!
Nisso o filho dele me mostrou onde poderia ficar, no antigo restaurante que tem ao lado do posto de gasolina. Podia armar minha barraca e cozinhar por ali, depois abriu o banheiro onde pude tomar uma ducha. Afinal foram 138km rodados até ali...
Aí vem o incidente mais idiota da viagem...
Deixei minha sacola com os rangos do lado da barraca já montada. Fui tomar um banho, quando volto vejo apenas um sachê de temperos no chão. A sacola tinha evaporado! Fiquei perdido! "Como é que pode!!!" E fui falar com o pessoal do posto, e eles dizendo que ninguém tinha passado por ali e que eu tava pirando. Mas como?? A resposta veio dos quadrúpedes...
No posto habitam 2 pastores alemães, do tamanho da minha cintura. Vi um deles rolando, e não entendi o porque. Só depois é que saquei, que foram eles que deram cabo da minha comida... Na sacola tinha uma lata de atum, macarrão, molho de tomate, temperos e... meia perna de salame. A hora que lembrei desse "detalhe" a ficha caiu. Não tinha mais o que fazer, fui dormir. Dormi com um olho aberto e outro fechado, a movimentação de caminhões ali era intensa!
No dia seguinte, acordei cedo pra cair na estrada. Peguei a lanterna e fui atrás de alguma coisa, sabia que os cachorros não teriam a manha de abrir a lata de atum e nem o molho, muito menos de preparar o macarrão! Fui atrás, dito e feito. Recuperei o atum e o molho, o macarrão tava destroçado! Acertei minha conta com o pessoal do posto (acabei comendo uns pastéis e outras guloseimas do lugar) e toquei adiante. Detalhe: me restavam 5 reais e ainda tinha 50km pela frente até o próximo posto, onde talvez, por ventura, quiçá, poderia trocar uma grana e almoçar decentemete.
| Com o filho do Sr. Salazar, na manhã do dia 24/12 |
| Foto do restaurante desativado e do Posto do Português |
